13 de out. de 2010

As aventuras do Capitão Marisco

Estavámos a caminho de Mina Clavero, em Córdoba, num ônibus delicioso, com assentos que viram cama e uma televisão LCD pequena que passava um filme que termina com o Johnny Depp tomando um tiro na nuca com direito a câmera lenta... Essa foi a única cena que vi. Minha amada estava ao meu lado, tentando dormir. Sentia ela um pouco pensativa. Abraçava o meu braço de vez em quando... E as vezes me olhava com ternura e dúvida.

Eram 4 da madrugada e ela dormia de costas pra mim, encostada no seu assento e com parte da cabeça encostada na janela. Eu olhava as luzes do farol do ônibus iluminar trechos de cimento e pastos ao lado por instantes que pareciam continuos, como a projeção de um filme...

Ela se vira e me diz com voz sonolenta: Contame una história...
Fiquei um pouco assustado com a enorme pressão da tarefa pedida e perguntei: Hmmm ¿cual?
- Cualquiera.
- Bueno...
- ¡En portugués!
- Tá bom...

Era uma vez um menino chamado Marisco... Era filho de comerciante e sua família vivia bem. Humilde. Seu pai queria que ele fosse comerciante assim como ele... pra dar continuidade ao seu trabalho e ao sustento da família. Marisco escutava esse discurso todas as noites e pensava que seu pai o repetia porque sabia que seu filho no fundo não queria nada disso. Ele sabia que seu pai fora igual a ele... e por algum motivo ele seguiu a vontade do seu pai (avô de Marisco) e precisava repetir isso com seu filho por algum motivo mais estranho ainda. Marisco sabia disso tudo e deixava seu pai pensar que era isso o que ele também queria: seguir a carreira da família e assumir a oficina. Mas no fundo ele não pensava isso... Ele queria ser capitão de um barco e estava preparado mentalmente para um dia fugir daquilo tudo e ir embora...

- ¿Embora?
- Sí... Es como ir de un lugar. Irte... Go away... No sé explicar.
- Está bien... Entendi.

Então, um dia Marisco estava passeando pelo porto... Era para estar vendendo tabaco e especiarías do tipo mas era apenas uma desculpa para olhar todos esses barcos enormes e pessoas corajosas que enfrentavam o desconhecido todos os dias. Ele sonhava com o mar. Queria o ar fresco intocado dos oceanos. Ah como era bom boiar em sonhos! Ele viu uma garota passar por ele... de tranças. Era diferente das meninas da cidade. Tinha coragem e parecia destemida! Ela se misturou com a multidão e Marisco voltou a admirar os barcos... "Ei!!" gritou um marinheiro do alto de um barco gigante. Marisco olhou para cima e viu o homem que lhe gritava. "Ei! Pequeno! Você tem tabaco!?" Marisco acenou com o polegar que sim e cheio de felicidade sentiu que esse foi o seu primeiro sinal de marinheiro. Subiu a bordo e esperou o marinheiro descer do maste. "O que você tá esperando?! SOBE!!" E Marisco subiu nas cordas, sem conseguir parar de sorrir, subindo até o marinheiro... Quando chegou lá, avistou pela primeira vez sua cidade como o pedaço de terra que é. Ficou maravilhado. Olhou para o outro lado, e viu o mar... O marinheiro, surpreso com a expressão do garoto, disse: Olha, em um mês vamos partir para as Indias. Vamos tentar um novo caminho. Marisco já não pensava em nada. Sentia as infinitas possibilidades dessa viagem
 - É mesmo? Como eu gostaria de ir!
 - Ora... Você já é grandinho. Pode nos acompanhar se quiser. Estamos em falta de homens... Ninguém tem coragem de tentar algo novo.
 - Mas... Eu não sei navegar.
 - Hah! Isso é o mais fácil. Você parece um pouco inteligente... Vai aprender rápidinho. O mais díficil você já tem! E isso é vontade!  É escutar o mar te chamando e ir por ele!

- Que lindo amor...
- Que cosa?
- Nada... Seguí...

Então em um mês o barco zarpou e atravessou o Atlântico... Descobriram um continente novo e pelos próximos 500 anos foram escravizados e explorados.

- Buuu... ¡¿Qué paso?!

Mas Marisco não estava nesse barco... Ele não embarcou. Quando saiu do barco naquele dia, encontrou com a garota de tranças... Terminaram por se apaixonar e viajaram ao interior... Anos depois Marisco comprou um barquinho e ele e a família que ele e a menina de tranças construíram passavam dias felizes a bordo...

- ¡Yo pensé que él iba a bordo! Que mierda Aron...
- No... Marisco se quedó... Pero igualmente, siguió su corazón.

:)

- ¡Yo prifiero las otras aventuras!
- Lo sé... Esas se quedan para nosotros.

Um comentário:

  1. Putooo, que conto lindo, mano! Rola um double twist, achei da hora demais, Aron. É legal, o primeiro twist joga uma camada nova de cor no conto todo, e o segundo quebra o terror e devolve um alívio gostoso pro leitor. As personagens do narrador e da namorada dele também são ótimas, super simpáticas.

    Lindo!

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