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8 de set. de 2012

algo legal pra você.

"Algum
"Algum comentário i
"Algum comentário interessante aqui".

Não, não.

"Algum comentário intere
"Algum coment
"Algu
"
"Alo."
"A
"

Caralho.

"Estou tenta
"Estou tentando escrev
"Estou tentando escrever algo leg
"Estou tentando escrever algo legal só pra você."

É verdade.

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Pedro Palma
há 2 semanas
"Estou tentando escrever algo legal só pra você."


Ninguém comentou meu status. Nem um like. Nem um nada. Quero escrever algo novo, dizer algo de verdade, lá de dentro para todos! Prepotente, não? Mas ninguém quer escutar o outro, eu nesse caso. Nem tenho o que dar. Nem um nada. Nada. Um nem tem o que dizer. Redes sociais? Talvez redes! De sociais não tem nada. Regurgitam o dia a dia para dizer nada. Interessante... Não havia pensado nisso. Os perfis apenas são. Porque teriam que dizer algo? Reflexo de nossas vidas sem sentido? Ora Pedro, publique isso no seu face. Não. Não quero provocar a ira ou a indiferença dos avatares. É cruel demais.

O carro arrancou. Música bem alta. Imagino se os de fora escutam algo da minha música. Minha música. Meu gosto musical. Que orgulho é escutar algo diferente da rádio... Olha esse pessoal esperando o ônibus passar. Vou devagar e compartilhar um pouco de mim.


É normal se olhar dessa maneira? A cerveja está falando... O que ela diz? Eu? Eu-bebado? Eu-dirigindo? Eu-online? Eu-ali-e-eu-lá... A morte é a única resposta.

Só vai sobrar o eu-caixão. E o eu-memória-de-cada-um-em-cada-um. Diferente de todos entre todos a todos. Que cansaço...



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Quem será que vai ler isso?
O Rodrigo que me adicionou ontem com certeza vai ler. O que vai pensar de mim? Algo bom espero. Que sou criativo... Sei escrever... Pensar.
Ou apenas vai ignorar e nada mais.
E os que adicionei no começo? Quem são? Tenho "amigos" que nem lembro mais... Que me surpreendo de ver quando clico em Amigos. Quem são vocês? Realmente gostaria de conhece-los!

"Que vergonha a seleção brasileira..." 3 pessoas curtiram
"Comprei um iphone novo!" 12 pessoas curtiram e comentaram que agora serão amigos no Instagram.

A gente se conhece? Ou apenas lemos nossas manchetes?

Patético.


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27 de fev. de 2012

Viagem aos Pampas

Um mês atrás, exatamente (que surpresa a minha ao conferir a exatidão disso - eu já ia dizer aproximadamente!), eu comecei minha Viagem aos Pampas. Essa é uma história real que não sei muito bem como contar.

A vida que eu levava antes de viajar constava de preocupações estranhas, porém tidas como normais para todos, de trabalho, carreira, dieta, reuniões sociais sem sentido, e bem... todas essas coisas tidas como vida normal para qualquer um. Eu digo estranha porque era estranho à mim - fora de mim - eu era realmente um observador observando, analisando tudo o que era feito e julgando se era bom ou não ou tanto fazia - como em muitos casos próprios observados. Eu levava uma vida estranha a mim mesmo.

Fui ao aeroporto ansioso por viajar. Tudo no horário, tudo sempre certo, tudo perfeito. Já estava pensando em contar isso a qualquer um que perguntasse "Como foi o seu vôo?". Lá vi minha amada L me esperando. Muito bom, muito lindo. Um abraço gostoso. Um beijo saudoso. Um contato especial.

Estava programada uma viagem ao interior, ao campo, uma fazenda plana e gostosa, calma. Antes de irmos me deparei com um livro na estante de L - "Viagem ao Oriente" de Hermann Hesse - e, como toda boa pessoa de fora, perguntei se podia levar para ler na viagem. Para o qual ela respondeu: "Porque você pergunta? É seu também."

Eu não sei porquê comecei este conto. Recentemente li em um livro de Eduardo Galeano - "El libro de los abrazos" - um presente de L para mim - uma passagem que dizia "(...) Cuando es verdadera, cuando nace de la necesidad de decir, a la voz humana no hay quien la pare. Si le niegan la boca, ella habla por las manos, o por los ojos, o por los poros, o por donde sea. Porque todos, toditos, tenemos algo que decir a los demás, alguna cosa que merece ser por los demás celebrada o perdonada." e de repente um turbilhão de imagens, de memórias e sensações me tomaram por completo e uma necessidade de dizer algo sobre elas, mas não sei bem o quê. Espero que algo saía desse esforço.

Estamos no meio da natureza, na fazenda de L, no seu campo onde ela é rainha e eu, seu consorte. Passamos uma noite agradável, com chuva e granizo, ventos fortes e ao mesmo tempo deliciosos barulhos eram feitos de tudo isso, você pode imaginar. Dormimos mais ou menos bem. No próximo dia recebemos uma família de amigos que nos acompanharam por 4 dias e 3 noites (não lembro ao certo a quantidade de tempo). A companhia deles era realmente agradável, tranquila e divertida. Jogamos alguns jogos de tabuleiro, cartas e dados. Conversamos e nos ensinamos coisas. Logo eles se foram, e eu e L tivemos nossa primeira noite verdadeira juntos. Sentamos a frente da lareira apagada e ela se pôs a falar...

Infelizmente não lembro muito do conteúdo. Infelizmente, porque ela realmente tinha coisas a dizer que seriam celebradas por muitos. Em instantes, minutos ou horas, eu estava em prantos. Ela me olhava com os olhos penetrados em meu ser. Impassível. Ela sabia o que queria de mim. É incrível como essas coisas acontecem, realmente. São inexplicáveis. Quase indizíveis, a não ser por símbolos muito bem construídos em alguma distante mitologia. Foram dias estranhos... Todo o meu "progresso" - trabalho, dieta, carreira, posses, conhecimentos, status - tudo isso foi por água a baixo. Acho que a chuva e o granizo estavam conspirando para isso. Não lembro o que foi dito, mas sei que mudei completamente, de repente.

Os próximos dias foram especiais. Eu estava lendo "A Montanha Mágica" de Thomas Mann e o curto livro de Hesse, "Viagem ao Oriente". Se o leitor já leu a Viagem, notará que tomei a liberdade de usar traços narrativos parecidos, mas não por preguiça, mas por um sentido mais profundo - não foi coincidência eu estar lendo esse livro - ele me permitiu dar vazões às minhas palavras de um jeito que eu não sabia que era possível. E realmente, não consigo expressar bem o que quero dizer.

Sinto estar falhando na minha narrativa... Quero falar sobre coisas muito difíceis de narrar. Instantes. Eternidade. Coisas fora do tempo - e dentro do mesmo. Quero falar sobre o Tao. Sobre o Amor. Sobre o Interior. Sobre Deus. E porquê? Não sei. Sei que falhei.

Hoje, ocupado com trabalhos e projetos, senti estar de volta ao progresso. Ontem um cara me disse que se você quer ter sucesso você tem que ser egoísta - esquece família, filhos, amigos, tudo - você em primeiro lugar e você em segundo. Você pode não pensar igual. Achar desprezível tal declaração. Mas um dia talvez você se encontre agindo assim... E surpresa, toda a "razão" estará ao seu lado. Espero que alguém como L te puxe para o lado de lá. Lá... Que não é lugar. Ou lado.

Reconheço, eu falhei.
Espero que você me perdoe.

15 de jul. de 2011

A lenda dos Rabunari

Um dia estava sentado na varanda lá de casa. Olhando as estrelas com calma, de uma maneira que parecia ser a primeira vez que as via. Minha irmã apareceu e se sentou do meu lado. Parecia que ela me olhava da mesma maneira que eu as estrelas, com um perfume de novidade. Pelo menos é o que senti vindo dela. Talvez era apenas eu e as estrelas... Quem sabe?

Ela levantou sua cabeça para o céu e se juntou a mim em contemplação. E me fez uma pergunta estranha para uma menina de sua idade, porém justa mesmo para a sua idade. Na verdade acho que é o contrário, é esse frescor de ser que impulsiona as dúvidas e curiosidades. Acho que pensamos que as perguntas profundas da vida pertencem aos adultos porque nossa surpresa ao não saber a resposta é tamanha que não imaginamos uma criança poder sentir o mesmo.

"Como foi criado o mundo, mano?" 

"Depende, princesa, no que você acredita." Pronto. Estava contaminando minha irmã com erudições e idiotices adultas. Ela me olhou meio confusa mas viu, mesmo antes que eu, que eu estava a esquivar sua pergunta. "Como assim?" - Não desisto de fugir e me escondo atrás do meu limitado conhecimento: "É que depende da religião de cada pessoa. Cada religião tem sua lenda da criação do universo e do homem. Ou mesmo a ciência... Só que aí já não é lenda, é hipótese." - Ela estava entediada com minhas palavras mas sentia algo de participação de algo sério, do jogo dos adultos, que também é uma brincadeira para as crianças... Ela me olhou e disse: "Eu quero saber o que Você acha."

Minhas defesas psicológicas tombaram como as muralhas de Jericó. Olhei pra ela, olhei para as estrelas, e bem... "Na verdade não acredito em nada... Só na Lenda dos Rabunari. Já ouviu falar?" - "Não... Me conta?"





A Lenda dos Rabunari



O homem nada é senão o sopro do Mistério.
O céu, a terra, o mar;
Nada são, senão sopros do Mistério.
A lua, o sol e as estrelas;
Nada são, senão sopros do Mistério.
A vida é tudo o que há,
e a vida nada é;
Senão o sopro do Mistério.


Uma criança lhe perguntou, então, ao chefe da tribo:
E de onde vem o sopro?
E o chefe respondeu:
Do Mistério.
E de onde vem o Mistério?
Do próprio Mistério.

Mas isso é muito pouco;
disse a criança.

O que seria suficiente?
perguntou o chefe.

- A resposta verdadeira,
não um enigma.

O chefe perguntou a todas as crianças:
Quando conto uma história,
o que importa pra vocês?
- O começo, o meio ou o fim? -

Todos, menos um outro menino,
responderam que o que importava era o fim.

O chefe riu e chamou a atenção
do menino que se calou.

- E você? O que é importante pra você?

O menino tímido se levantou
com respeito ao chefe e disse
- Não sei.

- Como você não sabe?
- Não saberia dizer...
- Tente!
- O começo não é começo sem um fim;
O meio não é meio sem um começo ou fim;
o fim não é fim sem um começo.
Então não posso dar mais importância
a uma parte ou outra;
Pois elas são todas uma só.

O chefe riu com deleite da resposta do menino.
Este se contraiu com medo de ter dito algum absurdo.
O chefe perguntou a todos:
- Disso que ele disse, o que vocês pensam
da origem de tudo?

Todos se entre-olharam, curiosos,
nem o primeiro, nem o último menino;
soube responder.

O chefe sorriu e disse:
É um Mistério, não é?





"Mano... Não entendi muito bem... Não me explicou como o mundo foi criado..." disse minha irmãzinha, ao final do relato. "Lola... Quando você brinca de esconde-esconde com alguém, o que você mais gosta? De procurar o outro ou de achar o outro?" Com a graça de uma criança que se pergunta algo de verdade ela logo me respondeu: "Os dois!"



(rascunho, cortesia forçada de iamBRÄO)


22 de mai. de 2011

Visita

Kholstomer me visitou hoje.
Estava em um montanha, parecia um vale, parecia verde, parecia algo.
Com o vento soprando, apareceu Kholstomer andando em minha direção.
Ele parecia um velho amigo de um conto esquecido, uma personagem tão viva e ao mesmo tempo dormente, ali no fundo do oceano, onde jazem todas as coisas importantes.
- Eu te disse - me disse ele.
- Como você está lindo... Eu sei, não precisa nem me dizer nada, sua aparição já é o suficiente.
- Não, não é. E sim, sou belo, como você esqueceu isso?
- Não sei. Não teve um como... Apenas aconteceu.
- Ah... Viu só... Te peguei outra vez.
- Como assim?
- Não tem como lembrar isso. Ou você se deleita com a beleza do mundo, com tudo o que isso implica, ou se perde em seus próprios pensamentos, incluindo a memória. Você poderia dizer a si mesmo que sou belo e guardar essa idéia, mas isso não seria a beleza, por mais agradável que seja ter essa memória. Você não ama porque você lembra que ama. Ou você ama ou não ama.
- Entendi... Você tem razão.
- Vem, sobe em mim que quero te mostrar algo.
Tinha esquecido como se sobe num cavalo, e sem cela ainda, parecia impossível mas foi como subir uma árvore. Sem medo, sem vergonha e com alegria. Ri do alto de suas costas, de cima dele tudo parecia diferente. Enquanto Kholstomer me levava para esse lugar desconhecido, a natureza parecia prestar louvores a nós. A disposição do mato, das plantas e das árvores pareciam estar abrindo caminho para nós e ao mesmo tempo se curvando com alegria. O céu também - as nuvens e o vento - era tudo tão calmo e ao mesmo tempo parecia que as nuvens diminuíam a velocidade para nos ver. E o mar... O mar estava silencioso como sempre.
- Segure-se - me disse Kholstomer.
De repente ele começou a voar. Voamos os oceanos e os continentes, para logo voltarmos à montanha onde nos encontramos. Desci de suas costas e começou a falar.
- Você pode viajar o mundo todo, quantas vezes quiser, mas o único lugar que você deve ir é o seu próprio coração. E é o único lugar que eu não posso te levar.
- Não entendo muito bem tudo isso...
- Não é pra entender. Palavras não significam muito...
E aí houve um silencio ensurdecedor... Kholstomer me olhava no fundo dos meus olhos. E logo me perdi no profundo negro dos seus... Que beleza indescritível.

1 de jan. de 2011

En el fin del mundo

"En el fin del mundo;
vivo y sobrevivo.
Acá aprendo;
a estar solo;
a no desesperarme;
a no temer a nadie;
y a no querer nada. 
El fin del mundo;
es el fin del ayer;
y del mañana.
El fin del mundo;
es mí vida.
Hoy.
Eternamente hoy."

Eu era apenas uma criança quando agarrei a garrafa que continha esse estranho poema em espanhol. Estava na praia e imaginei quem poderia ter escrito isso. Levei a garrafa para meus pais para ver se podiam traduzir para mim. Entendi o que eles disseram mas não compreendi o poema. Pensei ser do futuro, quando finalmente conseguimos destruir o mundo e esse era o seu mágico pedido de ajuda. Meus pais pareciam ter gostado mas não deram muita bola. Eu guardei o poema na garrafa e a deixei em cima da minha estante.

Namorei uma menina, duas, tres, quatro...
Todas eu achei que eu amei.
Amei... até a primeira, segunda, terceira, quarta briga.
No fundo não tinha amor.
Não sabia o que era amor.
Até hoje, não sei o que é amor.
Não importa saber.

Logo entrei em contato com diversas religiões. O cristianismo me pareceu atraente no começo. Parecia tão fácil ter uma crença e depositar toda minha segurança nela... Eu iria a igreja e tudo ficaria bem. Rezaria pelos meus entes queridos, falaria que perdôo quem "peca" contra mim e no fundo desejaria que eles queimassem no inferno (tendo em conta que eu acreditaria na existencia de um). Enfim, acho que as coisas seriam imperturbáveis, já que um senhor barbudo me esperaria na hora da minha morte em um trono de ouro em alguma nuvem por aí... E aí? Passaria a eternidade olhando pra ele? Sério? Não é que eu não quisesse acreditar... Eu simplesmente não queria esse futuro pra mim. Conheci o budismo e o nirvana pareceu lindo. Comecei a meditar e coisas aconteceram. Minha mente parecia ter encontrado um certo silêncio... Mas algo no fundo me incomodava. Sempre que me encontrava com raiva ou algo parecido, ia meditar. De repente me sentia reprimido. Parecia uma droga que me acalmava... E eu não queria isso. Eu queria me entender. Não queria depender de algo. Eu não queria alcançar o nirvana depois de mil re-encarnações. Se desejo alcançar o nirvana é porque ainda sou comandado pelo meu ego. Querer se despegar do ego é também uma ação do ego... Não sei o que fazer e busquei outras e outras religiões... E todas falavam de um fim dos tempos. Sempre no futuro. Sem futuro. Tudo o que me era dito entrava em conflito com o poema. Acho que erraram ao por fim dos tempos no plural. Como no poema, venho a pensar que o fim é o fim do tempo. Quando as pessoas deixarem de pensar no futuro e basearem seus pensamentos no passado, vai ser o fim. Quando elas começarem a viver no hoje. Vejo que ainda não chegou o fim, já que penso no futuro também.
Esse "vai ser" é uma merda.

Li livros. Fiz política.
Tenho uma família.
Os livros que encheram minha cabeça.
A política que fez a mim.
A família que tem a mim.

Tudo isso, eu não quero mais pra mim.
Eu não sou o que leio.
Não sou o que penso.
Não sou o que escrevo.
Não sou nada.

Onde está o fim do mundo?
Quando vai vir?
Preciso tanto que tudo acabe...
Agora.

Como pensar em um tempo futuro
em qual vou ser eterno em outra dimensão
se não suporto a mim mesmo nesta?


***



"En el fin del mundo;
vivo y sobrevivo.
Acá aprendo;
a estar solo;
a no desesperarme;
a no temer a nadie;
y a no querer nada. 
El fin del mundo;
es el fin del ayer;
y del mañana.
El fin del mundo;
es mí vida.
Hoy.
Eternamente hoy."


Re-escrevi esse poema porque perdi o original. Estava num veleiro com meu filho. Li o poema pra ele e ele pareceu não dar bola. Não o julgo. O amo. Coloquei o poema numa garrafa e joguei ao mar. 

6 de dez. de 2010

Última sessão

... Pois a natureza do homem é má." disse o pastor. "Vocês, caros fiéis, vocês tem que ser bons." Mal o pastor terminou de dizer essas palavras uma voz soou lá do fundo da igreja (diz-se igreja, pois na verdade era um velho cinema.)
- Desculpa! Mas... por quê?
O pastor, incrédulo, tremeu um pouco e até balbuciou por uns segundos e logo disfarçou, como todo bom ser humano treinado na arte da política.
- c-Como assim porque? O senhor aí no fundo, está a duvidar das palavras do Senhor?
- Estou a perguntar sobre as suas palavras senhor. Nunca li a bíblia.
- As minhas palavras são as do Senhor.
- Não seria as palavras Dele são as tuas?
O pastor olhou para os outros na platéia (como era um velho cinema, posso usar essa palavra.) e se sentiu um pouco constrangido.
- O senhor poderia vir aqui na frente para que todos pudessem te ver?
A voz do fundo era, para a surpresa de todos, de um jovem. Era baixinho, de cabelo curto e com pintas na cara. Ele subiu no palco e ali ficou, encarando com calma ao pastor.
"Ora essa! É um menino!" Pensou o pastor, aliviado por imaginar que agora iria destruir o seu oponente.
- Aqui estou. - disse o jovem.
- A sua pergunta era qual, meu jovem?
- Por que, se somos mal por natureza, temos que ser bons?
- Porque fomos corrompidos por Satanás. E é nosso dever sagrado lutar contra essa mácula.
"Amém Senhor" e outras coisas foram pronunciadas pela platéia.
- Mas, eu escutei dizer que, quando Jesus morreu na cruz, ele limpou essa mácula. Morreu por nossos pecados. Não?
- Sim... Mas não é bem assim.
- E como é?
Sentindo-se encurralado, o pastor logo olhou para uma pessoa ali atrás de uma cortina e fez um gesto com a cabeça. Rapidamente o pastor voltou-se ao público e disse: "Oremos!" e ao mesmo tempo aquela pessoa a passos rápidos se aproximou ao jovem e pediu que o acompanhe. O jovem que não tinha intenção de nada, apenas uma dúvida, acompanhou a pessoa ao outro lado da cortina.
Os fiéis oraram, choraram e louvaram a esse deus estranho que o jovem nada sabia. O jovem olhava tudo aquilo com curiosidade. Olhou para o lado e viu a velha tela de cinema. Se perguntou quantos filmes foram projetados ali... E vendo aquele espetáculo acontecer em sua frente, riu como se visse uma criança cair no chão ao tentar dar seus primeiro passos - nada cruel, apenas cheio de graça.



- Então você é um ateu. - Disse o pastor, desajeitando a gravata e o paletó. O jovem havia sido conduzido ao escritório do pastor, e ficou ali sentado, olhando aos movéis finos e todos os adornos luxuosos até o pastor chegar.
- Ateu? Não senhor. Não sou um ateu.
- Então o que você é?
- Eu sou eu. Não me considero religioso, nem ateu, nem agnóstico, nem nada.
- Então como me posiciono frente a você?
- Posicionar? Como assim?
- É. Como eu me dirijo a você? Se você não tem nenhuma crença mas também não deixa de ter.
- Bom... Você pode tentar me tratar como uma pessoa comum. Como você mesmo.
- Comum são os que estavam lá fora. Eu sou algo mais. Falo pelo Senhor.
- E é a vontade do Senhor que fez que você tivesse todos esses móveis e adornos? O seu fino paletó?
- Obviamente.
- Você não responde a ninguém a não ser o seu Senhor?
- A ninguém.
- Nem mesmo a gerência da Igreja?
- Bom... Sim, mas... Como você...?
- Senhor Gustavo... - Nesse momento o pastor congelou por dentro. Tinha tanto medo do seu próprio nome como os fiéis lá fora o inferno. O jovem percebeu a reação que o pastor quase conseguiu ocultar, e sorriu. - ... quanto a sua igreja ganhou este mês?
Gustavo tremia. Ele se esbaldou tanto da própria confiança, assim como um fiel de que é uma pessoa boa e decente, que achou que isso nunca iria acontecer.
- Por que eu tenho de responder isso a você?
- Meu nome é Paulo Pedroso Filho.
- Filho do próprio Paulo P..?
- Isso mesmo. E estamos muito descontentes com você, não por roubar dos pobres, mas por não dar aos ricos. Você tem um mês pra cobrir tudo o que você deve a nós, a Sua igreja, e Sua verdadeira senhoria.
O jovem se levantou da cadeira. Gustavo não disse uma palavra, temendo por sua própria vida.
- E da próxima vez que um jovem levantar a voz contra você, acuse-o diretamente e não o deixe falar. Você não tem que explicar nada a ninguém.
Paulo andou até a porta e prestes a sair, se voltou a Gustavo.
- Sabe, eu me pergunto como você durou tanto nessa profissão. Pelo menos você sabe quando calar a boca.


No outro domingo, o tema foi caridade, bondade e benção nos céus. Enquanto o ajudante passava colhendo as doações o pastor falava com muita vontade e convicção sobre quando Jesus compartiu o pão entre uma multidão.

13 de out. de 2010

As aventuras do Capitão Marisco

Estavámos a caminho de Mina Clavero, em Córdoba, num ônibus delicioso, com assentos que viram cama e uma televisão LCD pequena que passava um filme que termina com o Johnny Depp tomando um tiro na nuca com direito a câmera lenta... Essa foi a única cena que vi. Minha amada estava ao meu lado, tentando dormir. Sentia ela um pouco pensativa. Abraçava o meu braço de vez em quando... E as vezes me olhava com ternura e dúvida.

Eram 4 da madrugada e ela dormia de costas pra mim, encostada no seu assento e com parte da cabeça encostada na janela. Eu olhava as luzes do farol do ônibus iluminar trechos de cimento e pastos ao lado por instantes que pareciam continuos, como a projeção de um filme...

Ela se vira e me diz com voz sonolenta: Contame una história...
Fiquei um pouco assustado com a enorme pressão da tarefa pedida e perguntei: Hmmm ¿cual?
- Cualquiera.
- Bueno...
- ¡En portugués!
- Tá bom...

Era uma vez um menino chamado Marisco... Era filho de comerciante e sua família vivia bem. Humilde. Seu pai queria que ele fosse comerciante assim como ele... pra dar continuidade ao seu trabalho e ao sustento da família. Marisco escutava esse discurso todas as noites e pensava que seu pai o repetia porque sabia que seu filho no fundo não queria nada disso. Ele sabia que seu pai fora igual a ele... e por algum motivo ele seguiu a vontade do seu pai (avô de Marisco) e precisava repetir isso com seu filho por algum motivo mais estranho ainda. Marisco sabia disso tudo e deixava seu pai pensar que era isso o que ele também queria: seguir a carreira da família e assumir a oficina. Mas no fundo ele não pensava isso... Ele queria ser capitão de um barco e estava preparado mentalmente para um dia fugir daquilo tudo e ir embora...

- ¿Embora?
- Sí... Es como ir de un lugar. Irte... Go away... No sé explicar.
- Está bien... Entendi.

Então, um dia Marisco estava passeando pelo porto... Era para estar vendendo tabaco e especiarías do tipo mas era apenas uma desculpa para olhar todos esses barcos enormes e pessoas corajosas que enfrentavam o desconhecido todos os dias. Ele sonhava com o mar. Queria o ar fresco intocado dos oceanos. Ah como era bom boiar em sonhos! Ele viu uma garota passar por ele... de tranças. Era diferente das meninas da cidade. Tinha coragem e parecia destemida! Ela se misturou com a multidão e Marisco voltou a admirar os barcos... "Ei!!" gritou um marinheiro do alto de um barco gigante. Marisco olhou para cima e viu o homem que lhe gritava. "Ei! Pequeno! Você tem tabaco!?" Marisco acenou com o polegar que sim e cheio de felicidade sentiu que esse foi o seu primeiro sinal de marinheiro. Subiu a bordo e esperou o marinheiro descer do maste. "O que você tá esperando?! SOBE!!" E Marisco subiu nas cordas, sem conseguir parar de sorrir, subindo até o marinheiro... Quando chegou lá, avistou pela primeira vez sua cidade como o pedaço de terra que é. Ficou maravilhado. Olhou para o outro lado, e viu o mar... O marinheiro, surpreso com a expressão do garoto, disse: Olha, em um mês vamos partir para as Indias. Vamos tentar um novo caminho. Marisco já não pensava em nada. Sentia as infinitas possibilidades dessa viagem
 - É mesmo? Como eu gostaria de ir!
 - Ora... Você já é grandinho. Pode nos acompanhar se quiser. Estamos em falta de homens... Ninguém tem coragem de tentar algo novo.
 - Mas... Eu não sei navegar.
 - Hah! Isso é o mais fácil. Você parece um pouco inteligente... Vai aprender rápidinho. O mais díficil você já tem! E isso é vontade!  É escutar o mar te chamando e ir por ele!

- Que lindo amor...
- Que cosa?
- Nada... Seguí...

Então em um mês o barco zarpou e atravessou o Atlântico... Descobriram um continente novo e pelos próximos 500 anos foram escravizados e explorados.

- Buuu... ¡¿Qué paso?!

Mas Marisco não estava nesse barco... Ele não embarcou. Quando saiu do barco naquele dia, encontrou com a garota de tranças... Terminaram por se apaixonar e viajaram ao interior... Anos depois Marisco comprou um barquinho e ele e a família que ele e a menina de tranças construíram passavam dias felizes a bordo...

- ¡Yo pensé que él iba a bordo! Que mierda Aron...
- No... Marisco se quedó... Pero igualmente, siguió su corazón.

:)

- ¡Yo prifiero las otras aventuras!
- Lo sé... Esas se quedan para nosotros.

13 de ago. de 2010

lux

É noite. Parece que lobos uivam. O povo se desespera em terror. Homens fortes e corajosos buscam meios de se encontrar entre as tocas, e organizar a defesa contra essa matilha que já se anunciava há noites.

Mas estou calmo.
Sei que é o vento.

Por saber disso e nao agir como os outros, me acusaram e me expulsaram de minha própria casa. Outro veio e assumiu o papel de Pai e Marido, de minha mulher e filha. Que injustas nossas regras! Quão descartável somos! Essa raiva, anos atrás causaria nada mais que problemas.

Mas ali, ela me iluminou:
Não sou um papel.

Calmo e, para a surpresa de todos, fui embora sem rancor e desejo de vingança. Resignado e com uma certa felicidade em meu interior, procurei um lugar novo para viver. Encontrei uma montanha rochosa e com diversas cavernas. Subi ela e entrei em uma delas. A escuridao me deu medo e nao me atrevi em ir adiante. Aqui na boca é melhor. Tenho a luz do dia de um lado, e uma densa escuridao inexplorada de outro.

A noite me ensinou
a não me aventurar
sem a presença da Lua.

Anos se passaram e de repente já nao conseguia me mover tao facilmente. Uma chuva muito forte há muito havia destruído o meu velho povoado, e penso que sou o único que sobreviveu. Um dia estava a caçar na  floresta e de repente se fez noite. A Lua estava lá mas as nuvens bloqueavam a sua ajuda... Tanto que uma escuridao violenta tomou conta dos céus e largou fortes aguas em cima de mim. Raios amarelos iluminavam a noite como nunca havia visto! De repente um deles cai em minha frente e atinge uma árvore! Ela brilhava. Era a coisa mais linda que já havia visto. Essa era a minha mulher! Essa era a minha casa!

Sua luz me chamou.
Abracei-a e me uni a ela.

Por um instante,
parecia a escuridao da caverna,
me chamando para suas profundezas.
Agora eu sentia
que poderia me adentrar nela.

24 de jun. de 2010

Lúcifer

- "Pai! Pai!! Pai!!!", gritou o anjo Lúcifer aos céus. Como sempre, não houve resposta. Ele voava desesperado entre as belas nuvens recém formadas, vindas lá de baixo. Procurava seu Pai entre as nuvens e nunca o encontrava. O anjo Gabriel apareceu voando a sua frente, brincando com pássaros.
- Gabriel! Gabriel!
Gabriel, com seus cabelos longos e louros voltou a cabeça a Lúcifer e sorriu ao ver seu irmão por ali.
- Lúcifer! Que fazes por aqui, irmão?
- Procuro o Pai, Gabriel.
- Ora Lúcifer, você sabe que é impossível encontrá-Lo assim... Ele que vêm a você, não se lembra?
- Sim, sim, mas estou desesperado, irmão, sinto uma angústia em meu peito que não a entendo.
- Angústia? O que é isso?
- É algo horrível, irmão. Te consome por dentro. Corrói o teu coração como fogo quente a brasa. E não é a primeira vez que sinto isso e quero entender o porque disso! Por que sou o único dos filhos que sente esse tormento??
- Acalme-se Lúcifer, você é o mais velho. Deve vir com a idade, não?
- Não Gabriel. No fundo sempre a senti, mas agora está insuportável.
- Realmente não faço idéia do que dizes.
- Quero saber. Quero encontrar nosso Pai.
Os dois irmãos se calaram, observando os pássaros brincarem entre si. Lúcifer perguntou a Gabriel:
- Voce já viu o Pai?
- Já O vi, sim, Lúcifer.
- Quando???
- Em sonhos...
Lúcifer se pôs a pensar no porque que nunca tinha visto seu próprio Pai. Olhou para baixo e viu uma gama incrível de cores. Calmante e excitante ao mesmo tempo...
- Gabriel... Você nunca pensou em como deve ser lá embaixo?
- Não, Lúcifer, porque é impossível. É como um leão querer voar.
- Eu penso bastante...
- Pois bem, não pense muito, Lúcifer... Os irmãos estão se reunindo no Gatyanaya. Você vem?
- Não.
Gabriel saiu voando dali junto com os pássaros em direção ao Sol. Lúcifer, confuso, voou um pouco mais até o Sol se pôr. Reinou a escuridão. Por um instante pensou no porquê que as estrelas ainda não haviam aparecido... Ignorou. Se voltou para dentro, para sua angústia. Sentia que ia explodir. Fechou os olhos em busca de algo, com muita força segurou todo o ar que podia, mordeu os dentes para logo relaxar e exalar todo o ar em uma explosão de alívio. Abriu os olhos e foi quando, olhando para baixo, avistou um ponto amarelo brilhando, lindo e hipnotizante. Chamava-o para si. Parecia uma estrela, porém desconhecida. De alguma maneira essa visão tinha relação com sua angústia. Ele sentia isso. Seu coração ansiava por essa imagem. Seus olhos brilharam mais forte do que nunca e com grande força voou em direção ao ponto cintilante. Rompendo todo o ar e vento que lhe impedia de chegar ao chão, o anjo fechou os olhos e com toda sua força e velocidade se chocou contra uma parede marrom que nada tinha de igual ao ponto brilhante que tanto queria alcançar...

Era a primeira vez que um anjo pisava em terra. Como um recém-nascido que caminha pela primeira vez, levantou-se e sorriu de alegria. Sentia uma felicidade enorme. Absorto, olhou em volta e avistou algo parecido a uma nuvem, só que era de palha. Tinha um buraco no meio, convidando a escuridão, e uma fumaça negra saindo de cima em direção a sua casa, os céus. O anjo aproximou-se e via que algo brilhava lá dentro... Sua angústia havia se transformado e dado lugar a grande excitação e curiosidade. Entrou ali, nessa pequena toca e avistou um pequeno fogo queimando no chão, e ao lado, um ser parecido com ele mesmo, só que sem asas. Os dois olhavam profundamente nos olhos um do outro. Lúcifer, extasiado, perguntou:
- Pai?

31 de mai. de 2010

Minha primeira entrevista

Esta é uma transcrição do artigo publicado no jornal The Undercurrent, datado 30 de maio de 1969.

"Estranhei quando recebi um telefonema em casa a finais de uma noite de segunda-feira. Sou de uma cidade pequena onde todos se conhecem e ante qualquer evento importante já sabemos pelos gritos dos vizinhos contando um ao outro... Poucas pessoas sabem meu telefone e elas nunca me chamam. A voz do outro lado tinha um sotaque inglês e falava as pressas. Se anunciou como Paul McCartney. Logo respondi: Olha, não sei como o senhor conseguiu esse telefone mas com esse sotaque fajuto você devia ter tentado outra personagem!
- Oh não, jovem amigo! Sou Paul McCartney mesmo e você é Peter Garrison, o repórter do jornal escolar que publicou a matéria com o título de Os Beatles são Eternos, não?
- Sim mas... Como...? Isso não é um trote?
- Não, meu caro, e te convido a entrevistar a nós quatro amanhã a noite em Nova York no Hotel Plaza.
- Mas Nova York!! como vou a...?!
Desligou na minha cara. Me encontrei parado em pé, ao lado do telefone as duas da manhã, tendo aula na escola amanhã (sim, eu tinha apenas 16 anos) e a 300 milhas de distancia da maior banda do mundo: Os Beatles.
Essa noite dormi muito pouco ou nada. Encarei o teto do meu quarto como se ele contivesse as respostas de todas as minhas perguntas e ansiedades. Ir a Nova York amanhã? Isso implicaria faltar a aula! Conto aos meus pais??? Não! Não me deixariam ir! Me preparei mentalmente para a manhã: tomar banho, tomar o café da manhã sem dar índices de algo estranho, sair e ir correndo a estação de trem e comprar uma passagem a Nova York! E assim eu fiz. Tirei todo o meu dinheiro guardado debaixo do colchão e fui a estação, bem vestido e com um caderno e caneta a disposição. 
Aproveitando o tempo de viagem, formulei e escrevi minhas perguntas. Minha entrevista com Os Beatles:
Peter (Eu): - É uma grande honra estar aqui com vocês, Paul, John, George e Ringo. Grande, gigante honra. Não sei muito bem como funciona isso... É a primeira entrevista que faço.
John: - Apenas pergunte o que queira saber, rapaz.
Peter: - Me desculpem... Bom... Minha primeira pergunta é... É de conhecimento público que vocês estão trabalhando em um album novo...
George: - Respondemos esses tipos de perguntas ontem... Paul, você disse que ia ser diferente, mas que infernos?
Paul: - É, talvez eu me enganei... Olha, garoto, faça-nos perguntas de verdade!
Ringo: - É! Não essas coisas cansadas que todos já sabem!
Peter: - Ehm... Desculpem... Não sei o que voces querem dizer com isso...
George: - Olha, eu li o seu artigo sobre nós e eu o achei muito bom de verdade. Não sei como Paul o conseguiu...
Paul: - Foi a Natal...
George: - Não me importa... Mas... Seu artigo... Enfim... Nos emocionou muito.
Peter: - Bom... Eu não sei o que dizer... Obrigado?
Ringo: - O que você quer realmente saber de nós, garoto?
George: - Você é o primeiro a ter essa exclusiva...
Paul: - Vamos, garoto, o que você quer saber?
Fiquei branco. Nenhuma pergunta me veio a cabeça e um silêncio estarrecedor tomou conta do quarto de hotel de Paul...
John: - Que besteira, vou sair.
Guardei silêncio enquanto vi John Lennon sair do quarto.
Paul: - Não ligue... Vamos, o que você quer saber?
Os três Beatles me olhavam esperançosos... E não me veio nada a cabeça. Mas de repente olhei a fundo nos olhos de cada um e algo me comoveu. Estavam tristes. Faltava algo no olhar deles... Respirei fundo e tomei coragem...
Peter: - Tem algo que vocês... queiram perguntar a mim?.. 
Paul: - Não, voce é o entrevistador aqui...
Peter: - Pois me sinto como o entrevistado.
George: - Bem... Que bolas, menino!
Ringo: - Gostei! Pois eu tenho uma pergunta!.. Você gostou do último album?
Estranhei a pergunta mas arrisquei:
Peter: - Honestamente, da pista 1 a 6, sim. O resto, não.
Paul: - Porque? Os nossos fãs de verdade adoraram o disco!
Peter: - ...É porque eles comem o que vocês derem, não o que eles querem.
George: - Ora essa... Agora ficou interessante!
Ringo: - Muito bem... Viu, Paul.
Paul: - O que você acha dos nossos discos anteriores?
Peter: - Amo todos de coração. Muitas músicas me ajudaram em épocas difíceis da minha vida... O trabalho de vocês realmente significa muito pra mim.
Paul: - Sério? Como qual?
Peter: - Como em And Your Bird Can Sing... É uma música-amiga pra mim! Me abriu os olhos para quem sou e me ajudou a sair de uma péssima relação... Graças a essa música, pude ver a verdade. Sentir ela.
Ringo: - Hmm... Interessante! E que mais??
George: - É... Que mais?
Peter: - Help! In My Life, Here There and Everywhere... São amigas de verdade... Escuto e sinto amor. Sinto um abraço amigo. Sinto vida fluir dentro de mim... Imagino que vocês a compõem assim... Só pode ser.
Ringo: - É.. é...
Paul: - Bem... Claro que não é intencional... Não expresso um abraço nem nada quando componho mas... Sim, pode ser.
George: - Garoto... Bom... Não sei o que dizer... Acho que Obrigado é a melhor coisa a dizer.
Peter: - Mas... Porque?
George, Paul e Ringo se entreolharam...
Paul: - Sei que isso é uma entrevista jornalística... Ou algo do tipo né... Mas vamos contar algo que você deve guardar para si mesmo.
Peter: - O quê?
Paul ia dizer algo mas George o interrompeu.
George: - Nada, Paul...
Paul: - É... Melhor não... Deixe ser.
Ringo: - Isso... Deixe ser.
Paul: - Peter, foi um prazer te conhecer e esclarecer certas dúvidas... Seu artigo foi chave para o que está por vir.
Peter: - Não entendo...
George: - Logo vai entender, fique calmo...
Como um corte cinematográfico, a porta se fechou atrás de mim e me encontrei parado em um dos corredores de luxo do famoso Plaza Hotel... Sem entender nada do que passou, o apito tocou e a cidade me recebeu com suas sombras, prontas para me devorar...
Ao descer, vislumbrava os arranha-céus e tropecei em uma escada... Dei de cara com uma banca de jornais e com uma manchete que dizia: Após uma longa turnê, Os Beatles se foram!"

11 de mai. de 2010

João e Alergia

João era um jovem honesto e sincero
porque era alérgico a mentira.
Se alguém mentisse perto dele
ou estivesse vivendo uma mentira, ele espirrava.
Um dia conheceu uma jovem garota chamada Marta
também sincera e honesta como João.
Eles eram felizes e verdadeiros um com o outro.
Em um belo dia de inverno, Marta chegou
e de repente, João começou a espirrar.
João não queria acreditar no que acontecia: - Marta mente!
Começou a fazer perguntas a meio de tantos espirros:
- Conta a verdade! Atchim!! Fala! Vai! ATCHIM!!!
Marta dizia, perplexa, que não havia mentido e
nem tinha cometido algo feio.
João com toda sua ira lhe deu um tapa na cara!
Marta, com o coração partido e a bochecha vermelha,
foi embora e nunca mais voltou...
Mas João continuou a espirrar mesmo assim.
Até o dia em que seu resfriado passou...

8 de abr. de 2010

O Livro

dedicado ao meu merda.


Havia um garoto, há muito tempo atrás, chamado Furu. Ele tinha algo de especial, de observador. Era ativo nas atividades do Muva e era como qualquer rapaz de sua idade no que condiz aos deveres sociais. Excelente caçador de javalis, cortejava muitas garotas e gozava de boa saúde. Mas devido ao seu poder de observação percebia mais que os outros o passar do tempo. Isso lhe trazia medo e desespero em certas horas. Furu cresceu e aprendeu a aceitar o fato de que o tempo consume a tudo e a todos, incessantemente. Furu adorava sua mulher e seus filhos, e até isso ele aprendeu a aceitar que um dia iria deixar de existir. Que todos eles iriam crescer, envelhecer, seus corpos a definhar e eventualmente morrer. E isso era aceitável a Furu... Mas o que lhe era dificil aceitar era que o seu trabalho também pereceria. Furu era um contador de histórias. Assim como eu. Furu lutou e trabalhou arduamente por inventar técnicas para que suas histórias se mantivessem ao longo do tempo. Passou a desenhar coisas em pedras para que suas histórias continuassem... Mas isso não era o suficiente e finalmente Furu inventou a escrita. Era algo que só ele entendia e pretendia passar adiante a alguém os conhecimentos dessa escrita e manter sua obra viva. Mas como sabemos, isso não aconteceu. Foi-lhe proíbido pelo Muva o ensinamento de sua escrita. Furu se retirou para as montanhas e lá ficou até o final de sua vida... abandonando o Muva e sua família.

Passaram-se anos e anos, até que um dia, o mestre do meu mestre, Gumna Tut, foi procurar Furu para saber de seu ensinamento... sua escrita. Gumna Tut encontrou a choupana de Furu abandonada e nunca mais ninguém viu a Furu outra vez... Gumna Tut apenas encontrou diversas folhas de papiro com coisas escritas. Todas amontoadas e enroladas envoltas de uma singela corda. E na madeira onde estava guardado todos essas folhas estava escrito algo, que depois Gumna Tut decifrou e dizia: O Livro. Gumna depois de anos de estudos, reflexões e meditações decifrou todo O Livro e contou ao meu mestre: "Furu passou sua vida escrevendo um único livro. E esse livro era sua vida. Ele já não se importava com que outros o lessem, mas apenas em que ele o escrevesse."

24 de mar. de 2010

36º C

Andando pelo corredor percebi que era uma noite morna. Com morna quero dizer que o ar estava parado, sem vento e um clima que não era frio e não era quente... era morno, e sem graça. Essas noites são preocupantes para os homens em estado de ócio. Não sabem o que fazer consigo mesmos. Mas se fazem pelo menos algo, conseguem manter o estado de ócio no ponto certo. Se a noite é fria: buscam um jeito de se aquecer. Se é quente: tiram a camiseta ou ligam o ventilador. Quando morna... eles enfrentam o próprio ócio. E eis que sou um deles.

Entro no quarto e nada tenho a fazer. O ar parado fora da janela me convida a pensamentos que o vento normalmente não deixa surgir. Troco de roupa. Olho o quarto. Sinto o espaço ao meu redor. Ele conspira algo... Conspira para que eu faça algo. O que? Nada. Vou contra meus instintos e apago a luz. Me deito na cama e olho para o teto por aproximadamente meia hora... e aí me bate: Vou rezar. Faz tempo que não rezo. Faz tempo que não penso em Deus. Faz tempo que não sinto minha fé. Me viro de barriga pra baixo e junto minhas mãos em gesto de oração. - Deus, obrigado por esse... - E alguém abre a porta do meu quarto com toda a força! Me viro assustado pra olhar quem era e vejo um velho de barba branca, vestido de branco, e todo ofegante.
- Não continue! Não posso suportar!
- O que??? Quem é você?? O que você quer?!?!
- Não se assuste! Sou Eu! Deus! - E ele avançou o passo para mim e sentou-se ao meu lado na cama.
- Mas...
- Olha... - Ele tinha um cheiro a pessoa velha e um olhar bondoso, porém nesse momento parecia um pouco desesperado. - Vim pedir-te desculpas em pessoa.
- Desculpa porque? Como assim? Quem é você?
Ele recuperou um pouco a calma e me disse o seguinte...

- Sou Deus, Jeová, Pai de Israel. Sou o Próprio a quem você estava a orar. Sou o Deus acima de todos os deuses, assim Me declararam... E vim suplicar-lhe que não ores para Mim. Não posso suportar mais uma oração sem fé. Sem crença. Você não vê? Você não sente? Estou morrendo. E orações como essas são o porque da Minha falta de força. Antes o inferno de Satanás, o medo que as pessoas lhe tem, que a hipocrisia dirigida a Mim. Vim também pedir-lhe desculpas por ter abandonado você. Sei que parte da sua falta de fé é culpa Minha. Também Sou culpado, reconheço... Mas pare, por favor.
- Mas... Eu estava a pedir um pouco de ajuda...
- Olhe, existe horas que não adianta pedir ajuda. Sabe que existem pais que deixam o filho chorar no escuro para que o filho aprenda que eles nem sempre estarão por perto? Eu também faço o mesmo. Uma hora você vai perceber que você não pode contar sempre comigo... Uma hora você vai ter que parar de chorar por conta própria e parar de ter medo por conta própria. Eu vim te dizer que quero estar vivo em você. Em suas memórias. Não te acompanhei bem? Não fui um pouco bom com você? Pois eu te dei conforto quando me pediste. Mas chegou a hora de deixar-te... Então, por favor, pare de orar para mim.
- Mas porque??? Agora que eu sei que você existe! Porque?!
- Porque em parte deixei de ser Deus pra você há muito tempo, e agora aparecendo para você eu completo essa transição. Você está por conta própria.
- Não entendo o porque. Porque isso? Porque?
- Porque eu já não sou o que você precisa. Você vai ter que encontrar uma nova imagem. Provavelmente já a viu em seus sonhos. Ou em algum momento em que estavas sozinho no escuro e eu do lado de fora, esperando brotar isso em você. Está dentro de você. E se quiseres orar... Ore para ela. Ela é a minha mãe, também.

E em um piscar de olhos ele desapareceu... Me encontrei olhando para o teto... Querendo saber o porque que tudo o que me era conhecido já não me servia...
E o desconhecido me apareceu... ao mesmo tempo apavorante e intrigante.
Pronto para me destruir e me absolver, neste quarto e último parágrafo.

26 de fev. de 2010

ojo

- Olha, se apaixonar é bom e gostoso... Mas vá com calma, por favor!
- Mas... Porquê?!?
- Porque você pode assustar a menina... Vai com calma, é sério.
- Não me convenceu.
- Olha, é como se fosse uma garrafa de refrigerante. E quando você tá apaixonado é como se a garrafa fosse sacudida um montão por algum moleque travesso... E abrindo ela assim como você quer, vai apenas explodir e sujar tudo.
- Humm... Entendo.
- Desculpa, não pude deixar de escutar a conversa... Mas qual o problema de se sujar um pouco?
- Não tem problema, era só uma metáfora para a situação.
- Discordo, acho que a forma que você deu pro problema é muito mais relacionada a você, e não ao seu amigo.
- E o que você diria então?
- Usando o seu exemplo, eu perguntaria primeiro ao seu amigo: Você gosta de se sujar? Ou até mesmo: quando criança, quando o refrigerante explodia, você gostava ou não?
- Adorava.
- Aí está. Vai sem medo, amigo. Explode.

Pule.

25 de set. de 2009

O Jardim

...dedicado aos Jovens de Coração.


Seja bem-vindo, caro amigo. Justo à tempo. Estava a começar nosso pequeno relato do gia, mas explico uma vez mais sobre o que é, e mais importante, sobre quem. Sente-se, tome lugar. Sinta-se confortável.
Esse relato me foi contado por amigos que viajavam pelo pacífico e por acidente encontraram uma ilha desconhecida. Desconhecida por eles mesmos e pela nossa civilização. Essa ilha todavia segue desconhecida por nós e pela modernidade graças ao tato de meus amigos. Ela continua anônima e intocada. Curiosamente, nossa civilização sim era conhecida por seus habitantes, tanto que eram fluentes em diversas línguas. Bom. O relato que lhes vou contar foi contado aos meus amigos por Gumna Ti, um dos muitos sacerdotes da ilha, em uma espécie de culto realizado em uma pequena lagoa. Essa lagoa era realmente pequena e, segundo me contaram, muito silenciosa. Gumna subiu em uma espécie de balsa e guiou-se até o centro da lagoa com um cajado, e os ouvintes sentaram-se na margem a escutá-lo. Meus amigos eram os convidados de honra de Gumna e foi a eles a quem dedicou mais atenção e afeto no momento. Gumna lhes contou a seguinte kamta, em nosso idioma:

"Anos atrás, na minha mocidade, existia um rapaz muito mais jovem que eu, chamado Kiri. Ele era um garoto calmo e tranquilo. Muito calmo. Calmo, calmo. Sua mãe se preocupava com sua falta de atividade e não sabia se ele estaria apto aos trabalhos do Muva. Seus vizinhos se dividiam em relação à Kiri, uns achando-o vago e inútil, outros, às vezes, observavam-no com curiosidade e interesse... E eu era um desses. Kiri passava grande parte do tempo passeando e descansando. Do quê exatamente, não sabemos, pois ele aparentemente não fazia nada. Mas a verdade era que somente nas horas em que as pessoas o viam era que ele estava ocioso. Bem, um dia sai a passear perto daqui... e no meio do passeio cruzou rapidamente em minha frente uma serpente e logo três pássaros, voando na mesma direção! Tenso, pensei ser uma brincadeira de Fryula incendiando a floresta... mas não senti cheiro de queimado algum. Logo me acalmei... e de golpe um vento terrível soprou! Na mesma direção que os animais correram! Tenso novamente, pensei: ‘Vriula está nervoso!’.. Mas outra vez me acalmei e algo me fez seguir na mesma direção que o vento e os animais foram... e encontrei Kiri sentado nessa mesma lagoa onde nós nos encontramos. Creio que ele não percebeu minha presença... Kiri estava com um aspecto jovial e feliz, sentado olhando para o meio da lagoa. Aqui onde estou agora. E percebi que Kiri estava em um intenso estado meditativo... Fiquei em silencio, meio escondido, alí, um pouco mais atrás de onde estão nossos convidados, contemplando-o.

Passaram-se horas e nós dois não haviamos nos movidos nem um piclo. Encontrei-me no mesmo estado que Kiri, e senti uma estranha porém cordial união com ele. Kiri começou a gesticular algo. Sons saiam da sua boca. Sim, ele estava falando. Sua voz me trouxe de volta à ryula. Sua voz dirigia-se ao centro da lagoa. Kiri conversava com algo invisível e pelas pausas que fazia, pensei que estava dando à esse nada uma chance de resposta... E eis que uma voz soa no ar.

Não identifiquei a voz. Não a conhecia. Ela vinha daqui. Justo aqui. Desse mesmo lugar em que falo a vocês. Limpei meus ouvidos, chacoalhei minha cabeça, fechei e abri meus olhos diversas vezes, e a conversa continuava. Senti medo. Pensei ser um intruso nesse momento tão privado e secreto. Mas logo senti uma permissão ao meu corpo. Sim, eu devia estar alí. Justo aí, onde vocês estão. Preparei meu ser, minha mente, minha alma, meu corpo, meu espirito, enfim! Meu ser! Para escutar uma sabedoria única... Secreta.. Divina! Iluminadora! Uma sabedoria que iria acalmar todas nossas ânsias e dúvidas! Preparei bem meu ouvido... Me esforcei a escutar tudo nítidamente... Kiri ia fazer uma pergunta sábia, eu sabia. E as palavras que ouvi saírem da boca de Kiri foram as seguintes: ‘Mas, ó, caro amigo! Porque eu tenho que caçar um javali para provar meu amor por ela?!’ Meus olhos se arregalaram no instante e não acreditei no que ouvia. Como esse rapaz faz uma pergunta assim à Ula?! Melhor que viesse a mim com essa pergunta ou para qualquer homem do Muva! Mas tudo bem... Estranhei, confesso, e foi uma atitude estúpida, confesso também, pois todas as dúvidas são válidas. E atenção: Ula estava a escutar-lhe. E Ula lhe respondeu:

‘Jovem Kiri... Vou contar-lhe uma história. Há muito tempo atrás... Existia um certo jardim. Um grande e belo jardim. Eu amava esse jardim com todo o meu amor. Com toda a minha força. Ele era todo o meu espírito. Eu era esse jardim.
Nesse jardim haviam todos os tipos de flores e plantas. Impérios de insetos eram construídos e desconstruídos alí. Toda uma gama de seres e civilizações passaram a ser e a não ser alí. Mas uma flor em especial chamou-me a atenção. Hoje ela é conhecida como Dente-de-leão. Esse dente-de-leão cresceu ao meio de belíssimas rosas, violetas e orquídeas. E foi por uma dessas últimas que esse dente-de-leão se apaixonou. Essa orquídea era branca e de uma beleza inigualável até os dias de hoje. Bom, naqueles tempos, as flores cortejavam umas às outras com cantos. Elas tinham que cantar um canto próprio para declarar o seu amor pela amada. Assim sendo, muitos e muitas flores dedicavam à essa orquídea as melhores canções, as melhores melodias que podiam criar. Era-lhe devotada a nata do amor e espírito de muitas flores. Essa orquídea cresceu vaidosa e difícil de conquistar. Ainda não havia escutado o canto que despertaria o seu coração.
O dente-de-leão, frágil como era, não podia cantar. Seu corpo não lhe permitia tal ação. Uma vez tentou chamar a atenção da orquídea, mas sua voz mal foi ouvida, abafada pelos cantos dos outros tentando conquistar o coração da bela flor, e sentiu seu corpo desfalecer. Outras flores o escutaram e ridicularizaram-no. O dente-de-leão se retraiu fortemente por meses em uma profunda melancolia.
Essa é a dor do dente-de-leão. Essa é a dor do amor do dente-de-leão. Esse é o amor do dente-de-leão.
Um belo dia - inesquecível dia - o Sol havia brilhado mais tempo que usualmente e a orquídea despertou mais bela que nunca. E o dente-de-leão despertou da melancolia, encontrou-se ligeiramente maior, belo e mais corajoso que nunca. Respirou fortemente e cantou a seguinte canção à orquídea:

Amor, amor
Dias melhores virão
E vou poder cantar
O meu canto
Todos os dias

Amor, amor
Dias melhores virão
E vai te acompanhar
O meu canto
Todos os dias

A orquídea sentiu algo despertar em seu coração. Sentiu a vida inflar-lhe amor. A melodia longamente desejada finalmente existia... Ela virou-se em busca do dono da voz... e nada viu a não ser pétalas de um dente-de-leão, lentamente voando com o vento pelo belo jardim...’

O jovem Kiri parecia alegre com a história, estava absorto em pensamentos, e reflexionava com um sorriso curioso... A voz desapareceu e tudo pareceu voltar à normalidade... Aos poucos os pássaros voltaram a cantar, a água a golpear lentamente a margem da lagoa e os galhos a conversar com o vento. Me retirei sem ser percebido e pensei muito na história contada por Ula... Pensei muito no porquê que fui permitido estar alí... Vocês... Sabem o porquê? Não? Eu também não... Bom. Voltei ao nosso Muva, pensativo. Não sabia se deveria ou não falar com Kiri sobre essas coisas e sobre minha intrusão...

Dois meses se passaram e eu não havia dito uma palavra a ninguém sobre o que acontecera, e todas as noites nesses dois meses eu pensei no acontecido. Até que um belo dia vi Kiri caminhar em direção à moça mais bela do Muva... E não foi para dar um javali como prova do seu amor, como era o costume.
Ela estava na praia olhando para o mar. Kiri se aproximou dela, suavemente segurou sua mão com suas duas frágeis mãos e lhe disse algo. Algo. Ela claramente se emocionou, curvou-se agradecendo a Kiri por suas palavras, deu-lhe um beijo na bochecha esquerda e se retirou com alegria para sua tenda. Kiri alí ficou. Com a postura reta, o peito inflado e cheio de bem-aventurança, respirando lentamente. Quem o visse naquele momento o tomaria por um grande guerreiro... Mas era apenas um jovem garoto. Tomado de uma paixão e entusiasmo indescritíveis corri a contar-lhe o que havia acontecido há dois meses atrás, com todos os detalhes e todas minhas dúvidas e terminei por perguntar-lhe o que ele disse à moça e o que tinha ela com o ensinamento de Ula. E Kiri contestou-me:
- Nada.
- Nada?
- Nada.
- Mas... Você não é o dente-de-leão?
- Não. Eu sou o Jardim.”

15 de set. de 2009

Semente

There is a better outside of you... cantava erroneamente Alex essa canção melancolicamente alegre. Cantava desafinado, horrivelmente, fora de ritmo, Mal! Mas cantava-a feliz. Cantava-a verdadeiramente.
Queria enviar uma mensagem para uma menina que recém conheceu. A mensagem que ele queria enviar era a sua verdade: Eu te amo. Não. Não amo ela ainda. O amor, me disseram, tem que ser trabalhado, é construído, é com a convivencia, é só assim que se sabe se você ama mesmo a pessoa - se você a suporta! Mas não. Ele não podia enviar essa mensagem ainda pois lhe foi proíbido por seus oráculos sobre comportamento feminino: Anabella e Silvia. Como assim? Você nem conhece ela e já quer se declarar assim? Vai afugentar a menina! É! Se fosse comigo eu não ia gostar não... Enfim. Não.
Isso lhe desanimou o dia. A semana. O mês. Porque não posso falar a verdade? Porque? Eu amo ela sim! E eu quero lhe dizer isso já! O amor não é pra ser contido. O amor não é um jogo! O amor é verdade! É dizer desde já que eu gostei de você e que quero te ver mais vezes! Sim! É o oposto do medo! Sim! "A verdade tem que ser vivida, não aprendida! Prepare-se para a batalha!" disse o grande poeta! Mas também o grande filósofo disse que a verdade é como o Sol, que cega quem o encara por muito tempo, que para descubrir-lhe os seus segredos temos que ir pelo seu reflexo. Ó Deus. E agora? Enviei a mensagem! O que aconteceu com ir devagar? Com saborear a dor do amor, as insonias e a ansiedade. Os sonhos! Será que é vontade de acabar logo com a coisa? De ir ou não ir? Será que se declarar é uma grande expressão da sua verdade, do seu coração, do seu amor... Ou uma expressão da sua falta de força? Expressão da sua falta de experiência... Se esse amor é real. Acho que ela vai ficar brava. Pois ela obviamente quer saborear tudo... E vai me responder Você não tem o direito de fazer isso com nós.
Ela tem razão. Ou não?
Não importa.

22 de ago. de 2009

Buraco negro

- Não, filho! Não quero que você volte a falar nisso. E muito menos ao médico!
- Mas mãe! É a verdade! Você tem que acreditar em mim! Não estou inventando nem mentindo!
Os olhos de Lúcia já estavam lacrimejando. Nessa época de sua vida já não suportava levantar a voz ao seu filho. Outrora isso lhe causava apenas irritação, e certas vezes prazer, sensação de poder. Agora lhe causava terrível angustia. Ela fechou os olhos se contendo, e falou calmamente.
- Gabriel... Filho... É a sua condição. Você tem que entender. Não podemos deixar que o médico te ache louco... Já é um milagre estarmos aqui. Não podemos correr esse risco, filho.
- Mas mãe... Te digo a verdade...
- Filho... Por favor, não.
Gabriel calou. Olhou para fora da janela e fechou os olhos, cansado.
Lúcia inspirou pesadamente o ar, querendo chorar, e soltou-o, lembrando das coisas para fazer como dobrar as roupas de Gabriel, arrumar o banheiro com coisas do seu filho e agradecer as enfermeiras pelo carinho e cuidado para com seu filho. Ela fez todas essas coisas e ficou no corredor, fora do quarto, sem saber o que pensar ou fazer. Não conseguia confrontar seu filho. Não conseguia. Sentou-se na cadeira ao lado da porta e olhou por minutos a fio o chão do corredor. Sentia o cheiro de cloro no chão, um produto de limpeza tão forte que a fez esquecer de tudo. Pensava agora na sua infância... e como sua mãe cuidou dela uma vez que teve pneumonia. Sorriu, nostálgica, e baixou a cabeça, pensativa. Dormiu.
Gabriel estava deitado em seu leito, esperando sua mãe voltar.
Entrou no quarto seu médico, Doutor Mariano.
- E como estamos nos sentindo hoje, Gabriel?
- Bem...
- E a mamãe cadê?
- Saiu pra fazer algo mas não voltou. Não sei.
- Hm...
- Doutor...
- Me chama de Mariano, Gabriel... É assim que meus amigos me chamam.
- Tá... Mariano... Queria lhe falar algo... Mas minha mãe não deixa.
- Porque ela não deixa? Aconteceu algo?
- Não... Ela acha que eu to mentindo, e aí fica brava comigo...
- Mas... Porque?
- Bom. Sabe minha condição?
Mariano assentiu com a cabeça, com os olhos fixos nos de Gabriel.
- Então. Não é uma doença. É algo normal. Natural. É um buraco negro que tenho dentro da minha cabeça.
Mariano olhou perplexo à Gabriel...
- Então é isso... Pode achar que estou louco ou mentindo. Mas é isso. É isso que eu queria lhe falar.
Mariano abriu a boca para falar alguma coisa mas saiu apenas um "a" curto de sua boca e levantou e saiu do quarto. Mariano passou diretamente por Lúcia, que seguia dormindo e pegou o elevador para o último andar. Entrou na sala de Pesquisa Avançada e viu 5 de seus colegas médicos ao redor de uma mesa de luz, com fotos de raio-x e de tomografias em cima. Todos olhando curiosamente as fotos e soltando comentários como: "Oh, nunca vi coisa igual". Ora, as fotos eram do cérebro de Gabriel. Mariano ficou parado atônito ao pé da porta. Um médico percebeu sua presença e olhou para ele, logo todos fizeram o mesmo.
- Que foi, Doutor?
- Vocês têm que vir comigo.

Lúcia despertou de seu profundo sono. Apercebeu-se no corredor, com uma luz distinta entrando pela janela do corredor. Onde ela estaria? Por quais mundos viajou nessas horas? Nem ela sabia direito. Sabia que estivera em algum lugar, com seu filho, sua mãe e emoções confusas, diferentes e misturadas. Passou a mão no rosto, querendo alguma reação de seus olhos cansados. Escutou vozes vindo do quarto de seu filho e olhou para dentro. Havia cinco médicos de aventais branco ao redor da cama de Gabriel. Conversavam entre si. Lúcia entrou no quarto, com cautela, esperando o pior ao ver a cama de seu filho. Mas estava tudo bem. Mariano estava sentado ao pé da cama. Lúcia, curiosa, sentiu que não devia intrometer-se e sentou-se em uma cadeira atrás deles a observar os médicos e seu filho.
- Gabriel, estes são meus colegas. São eles os responsáveis por saber direito qual sua condição. Agora... Repita o que você me disse momentos atrás... Por favor.
- Tem certeza? Eles não vão me achar louco?
Lúcia olhou friamente à Gabriel. Mas no fundo queria saber a reação dos demais. Gabriel olhou para ela e ela assentiu calmamente com a cabeça.
- Não Gabriel, você não está louco... Pode contar. Eles são amigos também.
- Tá...
Gabriel buscou um pouco de coragem e confiança para falar para mais de uma pessoa.
- É assim... Sabe o que eu tenho na minha cabeça? Que vocês não conseguem achar? É um buraco negro. Não é uma doença. Não é nada anormal para ser curado. É um buraco negro comum. Iguais aos que existem aos milhares no universo. Só que ele nasceu dentro de mim.
Todos ficaram pasmos e atônitos. Olharam um para o outro. Lúcia também olhava para o rosto deles e buscava qualquer opinião parecida com a sua nos rostos dos demais, mas não encontrava. Logo olhou para Gabriel, e este a mirava tranquilamente, um olhar cheio de paz e calma. Mariano estava de algum modo feliz, olhando as reações dos seus colegas, mas ainda igualmente surpreso. Voltou-se a Gabriel.
- Gabriel, e como é que você sabe disso?
- Ele fala comigo.
- Fala?
- Fala não. Eu sinto ele. É como se ele falasse comigo.
- E o que você sente? O que ele fala?
- Fala pra eu não ter medo. Que é assim que deve ser. Que assim é.
Todos olhavam a Gabriel silenciosamente. Lúcia rompeu o silêncio pedindo que alguém lhe explicasse algo. Mariano a levou de lado e lhe explicou que o que acontecia com o cérebro de Gabriel nunca ninguém no mundo havia visto algo igual. De início pensaram que era um tumor comum mas não é. As células não estão morrendo e sim desaparecendo. Parece que são sugadas para um nada. Por isso que todos ficaram perplexos com o caso de Gabriel e agora que ele nos contou isso... Faz muito sentido com o que temos. É incrível.

Gabriel morreu dias após revelar seu segredo. Mais tarde descobriram que as células não desapareciam e sim morriam e se encolhiam a tal ponto que não era possível enxergar na época. Era um tumor raro, mas ainda assim, um tumor.

Lúcia enterrou seu filho a uns lotes de onde sua mãe fora enterrada. De repente lembrou-se do sonho que teve naquele dia, no corredor: Era um dia no campo, estranho, ensolarado e sem vento. Gabriel era ainda um bebê e Lúcia uma jovem mãe. Gabriel estava em uma cesta de frutas rindo de sua mãe e das cócegas que o vime lhe causava. A mãe de Lúcia também era jovem. Tinha a idade de Lúcia. Eram grandes amigas, então. Enquanto Gabriel ria e brincava com sua avó, Lúcia se encontrava ao lado, frente a um estranho tanque de dois ralos, lavando as roupas de sua mãe e de Gabriel.

28 de jul. de 2009

Jesus

Jesus é um homem comum. Filho de uma mulher chamada Maria e de um homem chamado José. Viviam uma vida humilde e tranquila. José era carpinteiro e nada mais fazia do que se ocupar de seu oficio e ensinar suas técnicas a seu filho. Jesus, quando tinha seus poucos sete anos de idade, viu seu pai preparar duas grandes toras de madeira e lhe perguntou: "Pai... O que é isso?" José, constrangido, lhe respondeu - Filho... Sabe quando alguém é ruim e malvado e machuca outras pessoas? Isso aqui é o que a lei usa para eles... Para eles se arrependerem.
- Pai... Porque é você que tem que fazer isso?
- Porque precisamos do dinheiro, filho.
Jesus franziu o cenho, pensativo.
- Tá. Mas isso dói?
José riu bondosamente: - Um pouquinho...
- Tá... Faz de um jeito que não doa tanto tá bom???
- Tá bom, filho...
Jesus saiu correndo, alegre, da oficina de seu pai e foi ao seu pequeno quarto, orar. Jesus orava por horas a fio. Isso lhe trazia força, alegria e vida. Ele não orava para nenhum nome conhecido, seu deus, ele chamava-o de Pai. A primeira vez que Jesus disse isso a alguém foi à Miriam, seu primeiro amor. Jesus, agora com seus 14 anos, estava apaixonado por essa garota. Miriam era uma típica menina da sociedade. Bonita, vaidosa, complexa. Contava nos dedos os meninos que a cortejavam... e adorava esse jogo. Jesus orava ao Pai, sinceramente e direto de seu coração, lhe pedia que Ele abrisse os olhos de Miriam de alguma forma e que se apaixonasse por ele. Uma idéia parecida vinha-lhe à cabeça, uma vontade irresistível, de pedir que Ele fizesse que ela se apaixonasse por ele... que Ele lhe desse ela. Ó, certamente Lhe pediu isso uma vez, mas se reprovou por isso. Era um sábio conhecedor do amor, e sabia que essas coisas não acontecem assim tão fácilmente, e mesmo se acontecesse, não é esse o modo que Jesus gostaria que acontecesse, por maior que fosse seu desejo... Mas, Miriam, entre todos os seus pretendentes, elegiu Jesus, o primeiro a lhe negar atenção, porque odiava o fato de ter os olhos de Jesus hora voltados para ela, hora voltados para dentro. Não conseguia conciliar a idéia de uma atenção dividida... Sentia-se traída.
- Miriam... Sabe que eu te amo muito não?
- Sei... e eu amo você.
- Eu e você... Somos um, Miriam.
Miriam adorava essas palavras... Sentia a verdade traspassar seu ser. Ao longo do tempo deixou a vaidade e seu jogo de conquista de lado... Sentiu esse caminho não ser o dela, e apenas era... uma criança. Passava seu tempo amando ao seu menino, e Jesus, a sua menina. Um dia, Miriam foi acometida de uma terrível doença... Seu corpo definhou e sua vontade de viver se limitava a abrir e fechar seus olhos umas poucas vezes ao dia. Ela abria os olhos, via Jesus, fechava-os, e via Jesus. Seu amor, Jesus.
Jesus não saiu do lado de sua amada em momento algum. Seu amor por ela crescia a cada momento... e sentia algo, lá dentro, brilhar... despertar. Orou ao Pai pela vida de sua amada. Orou ao Pai por descanso ao seu coração. Orou ao Pai por sua própria morte. Se ela morresse, ele também já não queria viver.
Nenhum desses pedidos foram atendidos. Miriam morreu. E alguma parte de Jesus, também.
Se refugiou no consolo de sua mãe Maria. Maria lhe trouxe conforto à sua melancolia. Disse à Jesus que ele ainda a encontraria no além, ao lado de Jeová. Jesus naquele momento sentiu um certo conforto, acolhedor, mas logo sentiu uma violenta tristeza. Seu coração dizia-lhe o contrário.
- Mãe, gosto muito de pensar nisso, mas sinto que não é verdade.
- Ora filho, está escrito assim.
- Mas eu não me sinto assim...
- Acalme-se... Tudo passa.
- Não, mãe. Isso não passa.

10 de mai. de 2009

Transformação

Havia um homem, cujo nome não me lembro, que falava pelos cotovelos. Era bem apessoado, cuidadoso e por mais que as pessoas não quisessem enxergar, era preconceituoso. Este homem odiava quem cometesse a infidelidade. Falava muito sobre a infidelidade e condenava-a em público. Odiava o traidor e seu cúmplice e compadecia pelo traído. Um belo dia... ou melhor, uma bela noite... a lua estava cheia e transbordando mistério e sensualidade. Seu corpo atraía as pessoas. Atraiu uma mulher. Ela era casada, e ele um solitário. Não resistiram um ao outro e se entregaram.

- Você é o que odeia -

Max era uma pessoa normal. Sim. Normal. Não há muito o que se dizer sobre ele... Apenas que ele amava as arvores. Defendia toda a natureza. Brigava com seus pais e irmãos quando estes não mostravam o devido respeito à natureza. No trabalho os outros zombavam-lhe por ser tão "verde". Amava a natureza. Adorava passar seus dias no parque sentado, pensando, sentindo e respirando a natureza ao seu redor. As arvores lhe comunicavam algo... que ele considerava superior. Ele ficou dias a fio no parque. Esqueceu de sua família, de sua casa e de suas obrigações. Vivia naquele parque... e não tinha intenção de o abandonar. Mais tarde, Max ficou conhecido como o velho do parque.

- Você é o que ama -

Julia é uma menina tímida, carente e um pouco nervosa. Explodia em nervosismo quando sua timidez e carencia tomavam conta de seu ser. Tinha medo do escuro. Ansiava por alguém que lhe mostrasse que ela não precisava ser tímida para com ele, que suprisse sua carencia e assim lhe acalmasse os nervos.
Um dia um menino lhe veio a dizer que a amava. Ela não soube responder nada adequado ao menino. Ela também o amava, mas disse algo como: "Sai de mim!", e o menino saiu.

- Você é o que teme -

Rodrigo recém havia terminado a faculdade. Se formou em agronomia e queria ser o maior da sua área. No dia de sua formatura teve um momento de inspiração e tatuou em sua cabeça que ele seria o melhor agronomo que já existiu. Assim feito, Rodrigo é o melhor agronomo que já existiu.

- Você é o que pensa -

O primeiro homem, cujo nome ninguém se lembra, nem mesmo aquela mulher que o amou naquela noite, não sentiu culpa alguma ao estar com ela... e a amou naquele momento. Se estranhou, riu de si mesmo e se sentiu vivo. Compadeceu por ele e por ela. Se alegrou por eles dois. E pelo marido também. A mudança estava a se manifestar... E ele se entendeu como apenas um veículo disso tudo. Max segue no parque... Se sente parte da natureza e passa seus dias com um deliciamento de estar vivo inigualável. Os outros apenas o vêem como vêem a natureza: uma parte da paisagem. Algo que está lá, totalmente estranho a eles. Julia voltou à sua casa, triste e deprimida - nervosa... e culpou o menino por se declarar daquele jeito à ela. Que desgraça! Era noite e sentiu medo do escuro que estava à sua espreita. Sentiu como se ela já não tinha nada a perder, com coragem apagou a luz e se entregou à escuridão... E percebeu que não havia nada tão escuro quanto ela nessa escuridão... e foi nesse momento em que sua luz acendeu. Rodrigo conquistou a estima de todo o mundo academico da agronomia. Reconhecido em todo o mundo, era tido como um dos maiores. Ele viveu para a agronomia, escreveu livros sobre a agronomia e lecionou nos ultimos anos de sua vida. Morreu para a agronomia. Contente e satisfeito.

- Você é.

A transformação se desvela como mera ilusão.

26 de mar. de 2009

Conto a um amigo

Uma música estranha estava no ar. O volume era baixo. Também a qualidade. Estranha. Parecia familiar e conhecida há muitos anos. O movimento vertical se deteve e de repente em minha cabeça a canção se tornou viva e o volume, alto - perfeita e familiar. Dois blocos de metal se separaram diante de mim. A porta se abriu junto a um apito incômodo porém suave. Entre pedidos de licenças e desculpas eu saio daquele cubículo terrivelmente pequeno, apertado e abafado com um cheiro de morte. Não de podridão, mas de morte.
Me encontro no meio de um corredor, com os sentidos aturdidos pela estranha atmosfera que me envolvia... Vejo uma mesa e uma mulher sentada atrás dela, vestida de azul (não sei porque pensei que ia ser de branco) com o cabelo amarrado para trás colocando em evidencia seu rosto não muito bonito e seus lábios com um batom vermelho exagerado. Cadê o bom gosto? A maquiagem deixa a mulher tão feia, desnatural... estranha. Espero ela desligar o telefone: "Oi, tô procurando o quarto 124... Onde é?"
- No fundo do corredor à direita.
- Obrigado.
Dou um leve sorriso e me ponho a caminho na direção que ela me deu. Chego em frente à porta e abro-a batendo duas vezes de leve.

"Entra" disse a voz lá de dentro, um pouco fraca. Era uma voz familiar, gostosa e calorosa. Sei que a voz, o som, não tem essas propriedades em si... mas era como me fazia sentir. As atmosferas se misturam. Morte e afeto.
Que combinação estranha...

"Aron?" perguntou a voz... "Eu" andei o pequeno corredor que dava à cama e vi meu querido amigo deitado ali. Pálido, magro e com olheiras enormes... Porém não consegui deixar de sorrir ao vê-lo. Ele também sorriu ao me ver. Até ganhou um pouco de cor... o que me deixou mais contente, também. Ele desceu um pouco os lençóis e abriu os braços para me receber, querendo um abraço. Abraço-o fortemente... Sinto seu coração perto do meu. Por um momento se tocam. É Bom. Sinto vida nele. Meu sorriso agora é imenso... Estranho.
Ele está sozinho. Ué, cadê a família dele? Os irmãos? Mãe? Pai? Amigos?.. Namorada?
Eles poderiam ter estado aqui ontem... Porque me importa isso? Ele percebe meu olhar perdido ao quarto e com isso os meus pensamentos também. Ele sorri lentamente, talvez porque ainda me conheça... mas não diz nada.

Busco uma cadeira e me sento ao seu lado. Ele levanta a parte de cima da cama com um controle remoto. Cansado. Mas faz um esforço pra conversar comigo... Me sinto lisonjeado. Honrado até.

- E aí... Quê cê me conta?
- Putz... Nada.
- Como assim nada? Conta algo!
- Ah... Tá tudo bem... Terminei o namoro faz pouco... Minha mãe vai se mudar... Meu irmão se mudou, tá com uma casa nova... Meu outro irmão tá ainda em Londres... Meu pai e minha madrasta acho que tão bem... Tá tudo bem.

Sorri um sorriso bondoso, imagino eu.
Ele sorriu de volta, com uma expressão de compreensão... e diversão. Se aproximou um pouco de mim, levantando-se ligeiramente de sua cama.

- Amigo... Sabe o quanto eu senti sua falta? Muita. Muita mesmo...

Ele se encostou na cama e até deitou um pouco a parte superior dela com o controle.
Fiquei pensativo um pouco. Ele fechou os olhos e respirava lentamente... Eu olhava pra ele com uma admiração profunda, porém incompreendida.

- Quero saber de Você, Aron. Me conta...

De novo, me sinto lisonjeado... Pensei. Não conseguia olhar pra ele. Ou para qualquer lugar. Minha mirada estava perdida. Quis encontrar o que contar, sem todas essas coisas superficiais, mas não consegui. Me odeio por isso. Queria me encontrar e falar tudo, como antes. Mas nada vinha. Meu amigo, me perdoe.

- É difícil, eu sei. Queria saber de você. Como antes. Era bom. E você sempre tinha uma facilidade incrível pra essas coisas... Queria escutar novamente alguém se abrir pra mim. Eu admiro muito isso em você. Todos os dias as pessoas entram nesse quarto, com toda a pena do mundo e me perguntam como eu estou. Me pedem para que conte algo. Mas não consigo. Eu sei como você se sente... Eu olho pro mesmo ponto vazio que você. É triste. Queria escutar um pouco de felicidade. De verdade. Você entrou aqui e não me perguntou nada. Não sei se não te interesso o suficiente ou se você consegue ler meus olhos, assim como leio os teus. Mas você não me olhou com pena... Então vou acreditar na segunda opção. Ninguém consegue me dizer nada. Pergunto pras pessoas alguma coisa, qualquer coisa, e elas respondem com uma voz estranha, de pena, com falsa bondade. É muito estranho... E só me dizem coisas do tipo que você acabou de me dizer. É tão podre. Queria conhecer mais essas pessoas que amo tanto... mas tenho que me contentar com os olhares. O carinho, o afeto... os abraços. Não que seja ruim... Amo isso, você sabe. Mas eu queria mais. Preciso de mais.

Tão estranho alguém ser tão aberto com você desse jeito. Com essas palavras. Que coisa... Não resta nada a não ser escutar. É gostoso... e dá medo.

Destruo toda a fortaleza que construi nos últimos meses para me fazer uma pessoa "forte".

- Tá bom... Te conto.

Seu rosto se acendeu. Seus olhos se abriram e suas bochechas subiram com a abertura de um sorriso.



Era noite e me sentei em um banquinho de cimento, debaixo de uma árvore, a três quadras dali. Quando sai do quarto ele já dormia. Eu também adormeci... Todavia estou meio lerdo.
Penso nele. Na família dele. Nos amigos. Na namorada dele. Penso neles porque me sentia culpado de me sentir feliz em um momento desses. A culpa tinha que ser transferida... mas ele a dissolveu. E a "força" que se precisa para viver nesse "mundo duro e cruel"... é tão ridícula. Penso se aquela música foi coincidência. Se tudo o que me aconteceu nos últimos meses foram apenas um pano de fundo para o que aconteceu agora. É tudo tão bem construído que me assusta. É tudo tão estranho... "Rebirth" em um hospital é sacanagem. Hahahahaha.

A árvore me escutou, e porque não, o banquinho também... Se você quer saber, acho que eles riram juntos comigo.

E é verdade. Nunca senti pena por ele. Mas sei que vou sentir sua falta.
e seremos só boas memórias...
Um eco caloroso..
Só saudade.